O CODIFICADO E O NÃO CODIFICADO NO CONTO “AMOR”, DE CLARICE LISPECTOR, José Osmar de Melo
THE CODIFIED AND THE UNCODIFIED IN THE SHORT STORY “AMOR”, BY CLARICE LISPECTOR
No conto “Amor”, Clarice Lispector coloca em questão o codificado e o não-codificado, ao questionar as relações amorosas como fruto de condicionamentos culturais, que criam ilusões relativas à felicidade e iludem o homem no que diz respeito à sua situação existencial de desamparo, solidão e abandono. Entretanto, quando ele descobre isso, toma conta dele a mais avassaladora e profunda angústia existencial. É o caso da protagonista do conto “Amor”, que, ao se deparar com um cego que masca chiclete num ponto de ônibus, vê-se, de súbito, assaltada por um incontrolável sentimento de estranhamento e de mal-estar existencial. Essa epifania de sentimentos desencontrados, contraditórios e opostos, frente a essa situação inusitada, lhe revela a descoberta de um mundo obscuro, perigoso e enigmático, que ela não conhece. Daí a razão de seu susto, de seu espanto, de sua náusea, de seu fascínio e de sua repulsa em face da existência. Esse estado de estranhamento muda-lhe o sentido da vida e, com isso, ela perde repentinamente suas ilusões concernentes ao casamento, frágil ideal de felicidade construído pela ideologia burguesa, que a narradora questiona, ao nos apresentar uma personagem emparedada por um cotidiano repetitivo que a oprime e a encarcera nas lides do lar. Assim, ainda que ela tenha um casamento aparentemente consolidado, um excelente marido e filhos maravilhosos, ela descobre que a existência ultrapassa a triste mesmice de sua condição de dona de casa, já que outros apelos misteriosos, intensos e eróticos pululam-lhe no íntimo e a faz dividida, fragmentada, incerta e sem saber nomear a angústia e o mal-estar que lhe bordejam outros desejos que, no entanto, são interditados pela protagonista, uma vez que põem em perigo sua vida de mulher casada. Assim, entre a liberdade e a prisão, a protagonista opta, ainda que temporariamente, já que não há o apaziguamento do conflito, pelo encarceramento familiar, pois, depois da assustadora vertigem que sofrera com a possibilidade de escolher outro modus vivendi e de vislumbrar o jardim das delícias do paraíso perdido, ela retoma o medíocre, macabro e merencório ritual de dona de casa.
