Prezados amigos,
A nova edição da revista Imagens em Foco propõe um diálogo profundo entre imagem, memória e poder — temas que atravessam os quatro artigos aqui reunidos, todos comprometidos com a reflexão crítica sobre as formas de representação e os discursos que constroem o imaginário social, político e estético de nosso tempo.
O primeiro artigo, “Che: o herói e o mito da Revolução Cubana”, de Andréa Mazurok Schactae e Ania Pupo Vega, investiga a construção da figura heroica de Ernesto Che Guevara a partir de uma leitura de gênero das fotografias publicadas pela revista Bohemia, em 1967, logo após sua morte. As autoras demonstram como o Estado cubano, ao difundir essas imagens, consolidou um ideal de masculinidade viril e heterossexual, reafirmando o espaço público como domínio masculino. A análise, ao mesmo tempo histórica e iconográfica, evidencia como a imagem fotográfica atua na criação de mitos políticos e na naturalização de modelos de poder e identidade.
O tema da representação e do apagamento das mulheres se amplia no artigo de Josilene Pinheiro-Mariz e Márcia Cybelle Santos Leite, intitulado “Leia Mulheres: vozes e visibilidades no cânone literário brasileiro”. As autoras partem de uma inquietação teórica — a ausência de escritoras no ensino e nos estudos literários — e analisam o movimento Leia Mulheres, especialmente o grupo de Campina Grande/PB, entre 2023 e 2024. A pesquisa revela como as escolhas de leitura do grupo trazem à tona autoras de diferentes origens, gêneros e identidades, promovendo um deslocamento do olhar crítico e ampliando o repertório do cânone nacional. Trata-se de um exercício de reconstrução simbólica que devolve às mulheres o espaço da palavra, tantas vezes negado.
Também voltado à crítica dos discursos hegemônicos, o artigo “Between the prey and the hunter: the instinct of resistance in Bacurau”, de Jack Brandão, examina o filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles sob uma perspectiva sociocultural e histórica. Partindo do imaginário do sertão e da literatura regionalista, o autor relaciona a obra cinematográfica a discursos raciais do século XIX, como os de Gobineau e Euclides da Cunha, mostrando como as representações do sertanejo como ser “inferiorizado” foram usadas para justificar formas de dominação. Articulando teorias psicológicas de William James, McDougall e Freud, o texto analisa a violência e o prazer na caça — metáfora das práticas imperialistas — e revela como o filme subverte essa lógica, transformando a vítima em agente de resistência.
Encerrando o número, o estudo de Ivânia Campigotto Aquino, Gilmar de Azevedo e Aline Venturini, intitulado “Volto Semana que Vem: memória e testemunho no romance de Maria Regina Pilla”, retoma o tema da voz feminina e da reconstrução da memória durante as ditaduras brasileira e argentina. Por meio da metaficção historiográfica, as autoras exploram o entrelaçamento de narrativa, imagem e história, mostrando como a literatura de autoria feminina atua como espaço de resistência e de preservação da memória coletiva, impedindo que o esquecimento apague as marcas do trauma político.
Os quatro textos, embora distintos em abordagem e objeto, convergem em um mesmo gesto crítico: o de reconhecer o poder das imagens — visuais, literárias ou simbólicas — como construtoras de memória, identidade e poder.
Imagens em Foco, portanto, reafirma seu compromisso com a reflexão interdisciplinar e com a promoção de olhares plurais sobre o mundo contemporâneo, no qual a disputa pelas representações continua sendo, antes de tudo, uma disputa por visibilidade, voz e verdade.
Saudações acadêmicas!
Prof. Dr. Jack Brandão
